Vida na Escola Mesa-redonda “Inovações em Ensino e Tecnologia”

A terceira atividade do Congresso Educação Criativa e Gamificação, realizado no dia 15 de agosto de 2020, foi uma mesa-redonda sobre “Inovações em Ensino e Tecnologia”, mediada pelo professor e coordenador pedagógico da ECDD, Alexander Francisco. Além deste, a mesa foi composta por mais três professores: Danielle Candelária, professora do colégio Notre Dame e Santo Agostinho, mestre em tecnologia digitais e educação; Leandro Costa, coordenador da Pós-graduação Live “Educação Criativa e Novas Tecnologias” da ECDD, assim como sócio-fundador e lead game designer da Ludilens, e pelo Prof. Jeferson Pandolfo, organizador do canal TEO – Tecnologias Educacionais Online.

Para “aquecer” o debate, Prof. Alexander trouxe duas perguntas, a primeira foi “Você pode citar exemplos de inovações que podem melhorar a educação?”. Profª Candelária foi a primeira a responder. Ela focou na importância de se conectar com o aluno, “para profissionais da educação, essa questão de ir ao universo do estudante não é novidade”, diz a professora. Profª Danielle explica como a tecnologia gerou uma “revolução comportamental” e que esse momento de quarentena é a oportunidade ideal para adentrar nesse novo universo tecnológico. Ela citou diversas mídias que podem ser facilmente utilizadas no aprendizado, como os jogos Plague Inc, que aborda o tema de pandemias, e Civilization, que ensina sobre desenvolvimento de povos. Os próprios desenhos animados são cada vez mais fiéis ao conteúdo, como Cells At Work, um anime sobre células do corpo humano. “Para qualquer tipo de disciplina – e para qualquer tipo de conteúdo – temos condições de inovar, aproveitando justamente aquilo que o universo [dos alunos] favorece para que a motivação seja talvez um pulo para que a gente consiga atingir os objetivos dos nossos processos pedagógicos.”

Profº Leandro concorda, conectando o que a Profª disse sobre a importância de uma flexibilidade no ensino, “o que eu venho observando nos dias de hoje é uma tendência, e uma necessidade, da educação ser cada vez mais versátil, personalizável para cada estudante, flexível e cada vez mais ativa por parte do aluno”. Ele compara o professor a um designer de experiências, assim como um mentor. Seu objetivo é ajudar os alunos a reconhecer seus potenciais e encontrar seus caminhos, mas por meio de um papel de facilitador e não de um mediador, isso é, de forma cada vez menos ativa. Ele explica como é importante que o aluno encontre o seu próprio caminho, além de ser mais instigante para o mesmo. De acordo com o Prof. Costa, a tecnologia ajuda muito nisso, disponibilizando ferramentas que permitem que a educação não pare na sala de aula. Ele cita a possibilidade de ter aulas online, não só através de ferramentas como o próprio Zoom, mas também em encontros com realidade virtual ou até em jogos como Warcraft.

Profº Jefferson foca na flexibilização e adaptação do ensino, reconhecendo que “é um desafio gigante para nós, professores, entender essa nova geração marcada agora por um perfil de aluno que é app learning”. Ele fala sobre como o mundo atual exige um aprendizado rápido e acelerado e chama atenção para o fato de que nem todo o conhecimento é necessário. Usando como exemplo receitas online e aplicativos de trajeto, ele explica que essa facilidade de acesso ao conhecimento permite que o mesmo seja descartado rapidamente. Por isso, o papel do professor mudou, mais do que ensinar um conteúdo específico, ele precisa se tornar um “curador de conteúdo”, selecionando e encontrando conhecimentos que já estão disponíveis dentro a imensidão de informações, e fake news, disponíveis onlines. Contudo, encontrar o conteúdo não é o suficiente, é preciso ter intencionalidade por meio dessa mediação, o conhecimento precisa ser direcionado de maneira didática e metodológica para uma aula efetiva e significativa.

Em seguida, o Profº Alexander colocou a segunda pergunta: “qual deve ser o papel da tecnologia nessas propostas inovadoras e quais cuidados devemos tomar com relação ao uso dela?”. Profº Leandro escolheu abordar primeiro os cuidados, sendo o mais importante “não se encantar demais pela tecnologia”, “seu papel é viabilizar uma entrega cada vez melhor de ensino e também uma experienciação do aluno por meio desse ensino, mas sobretudo gerar cada vez mais significado para o que se está ensinando.” A tecnologia facilita o acesso ao conhecimento, mas mais que isso, permite colocar o aluno em um papel mais ativo, permitindo que ele resolva problemas e participe de projetos. o Profº explica que o aprendizado precisa encantar o aluno, ele precisa pensar “isso é melhor do que TV”, mas também precisa ser útil, em suas palavras, “a tecnologia deve ser usada com esse filtro: ‘vai gerar mais significado?’ e ‘vai gerar mais encantamento?’.”

O Profº Pandolfo comparou o professor ideal ao Batman, “sem poder mas cheio de bugigangas” que, nesse caso, seriam as tecnologias que acrescentam às aulas. O mais importante não é a tecnologia em si, mas como ela é apresentada. Ele explica que o conceito de aula invertida não é recente, como muitos acreditam, o próprio Sócrates já ensinava assim, “venha com a sua dúvida que com base na sua dúvida eu trabalho”, através da maiêutica socrática, como Alexander adiciona no chat. Cada tecnologia pode, e deve, ser usada em situações específicas diferentes sempre tendo em consideração os alunos. “No meu entendimento, o domínio das ferramentas tecnológicas, o domínio da internet, é uma obrigação, uma competência, uma habilidade que o professor precisa ter”, também é importante entender o propósito de cada ferramenta. O professor volta ao que já tinha dito sobre mediação com intencionalidade, relembrando que de nada serve uma tecnologia se seu uso não for planejado e pensado com cuidado. Ele finaliza chamando atenção aos desafios de manter os alunos engajados e motivados e de desenvolver estratégias para “de fato colocar o aluno como protagonista do seu aprendizado”. O Prof. Alexander reforça a importância e a dificuldade de “fazer o protagonismo sem perder o planejamento”, relembrando que a função do professor é simplesmente acompanhar o processo do aluno, incentivando e encantando o mesmo quando possível, “chega daquela ideia de achar que a gente está trazendo a luz que a gente não tem.”

A Profª Candelária reflete sobre como muitos consideram a tecnologia a “vilã” dos jovens do século XXI quando, na realidade, o real vilão é a forma como as pessoas se relacionam com essas tecnologias. “O papel da educação sempre foi – e sempre será – importante, e de maneira atemporal, naquilo que se refere a colocar os pés no chão da sociedade em relação a como enxergar toda e qualquer tipo de ferramenta que surgir nesse planeta.” Ela explica que nenhuma ferramenta é intrinsecamente boa ou ruim, isso será definido pela forma como o ser humano se relaciona com ela e é trabalho do professor guiar as pessoas a uma relação positiva. A professora chama nosso contexto social de “cibercultura” e, portanto, nós nos conectamos e nos relacionamos através de novos meios e é essencial se alfabetizar, se adaptar, nesses meios. “Se os educadores não abraçarem a missão de fazer com que os indivíduos se alfabetizem neste novo contexto, se construam nesse novo contexto, de fato podemos ter problemas sociais, familiares, cada vez mais graves”. Ela explica como isso está atrelado aos perigos das fake news, “a gente acha – ou achava – que fake news é como fofoca da vizinha, da escola”, mas a internet permite que essas “fofocas” se espalhem de forma que as torna perigosas, há até empresas que “trabalham fomentando essas fake news e destruindo sistemas”. Ser alfabetizado permite que você se torne um cidadão dessa cibercultura, que você crie um filtro para essas fake news, por exemplo. “Vai muito além de deixar de escrever no papel para passar a digitar no celular.” Por fim, a professora concluiu: “ter ciência de o quanto que jogar uma informação, ou disponibilizar, replicar, repassar, é uma responsabilidade social, é algo que talvez seja um dos grandes desafios dos educadores do século XXI.”

O Prof. Leonardo Abreu comenta no chat que “despertar e estimular o senso crítico é primordial. em todos os níveis da educação e nos educadores também.” Em relação a isso, o Prof. Alexander fala sobre como um aluno assistir um vídeo ou documentário durante uma aula, ouvindo comentários do professor é diferente dele assistir sozinho em casa, exatamente por conta desse incentivo a uma visão crítica. A Profª Danielle concorda e enfatiza como desenhos animados, por exemplo, já possuem contribuições extraordinárias. Séries como Irmão do Jorel, O Incrível Mundo de Gumball ou Hora da Aventura possuem uma grande quantidade de críticas sociais que, não só podem ser passadas despercebidas, como são ótimos recursos para trabalhar durante as aulas. O Prof. Pandolfo destaca a importância de deixar com que os alunos cheguem às suas próprias conclusões, “deixar o aluno quebrar a cabeça”. Ele utiliza como exemplo a Wikipedia, odiada por muitos professores por ter informações erradas, e fala como é ótimo que tenha tanta informação errada, pois isso permite que o aluno confronte essa informação. Ele também reflete sobre os benefícios de deixar os alunos pesquisarem e debaterem um assunto sem uma influência inicial do professor, como isso permite que eles reflitam sobre esse assunto, “a gente precisa desenvolver competências e habilidades para que eles sejam críticos.” Ele explica que o mundo está passando por mudanças, então é impossível prever a profissão de alunos, “nem existem ainda as profissões que os nossos alunos do ensino médio vão ocupar”, por isso mesmo é tão importante focar no ensino de um pensamento crítico. O professor não deve ensinar o aluno pensando em uma profissão ou conhecimento específico, mas sim em desenvolver a habilidade de se posicionar observando aspectos culturais, emocionais, ambientais, etc. com responsabilidade e valor.

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