VIDA NA ESCOLA

Festival Méliès de Cinema e Animação: do 2D ao 3D (2º dia)

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O segundo dia do Festival Méliès fez o caminho do 2D ao 3D, iniciando com uma conversa cheia de dicas importantes do ilustrador e animador Carlos Luzzi. Luzzi contou sobre seu empenho com a ilustração até chegar ao sonho de ser animador e sobre sua viagem de estudos para os EUA, no American Animation Institute (atualmente Animation Guild), em uma época na qual o Brasil não oferecia caminho para quem queria seguir a carreira de animador, e a importante experiência de ter trabalhado na Disney.


Em seguida, tivemos os também grandes Ranz Ranzenberger e JC Oliveira, que estão fazendo um trabalho de vanguarda do 3D usando tecnologias de Realidade Virtual. Eles contaram sobre os desafios e as motivações de estar descobrindo as possibilidades de uma mídia e mostraram um trabalho recente (no final tem o link do trailer!) com tecnologias recentes de mídia: cinema 360, narrativa interativa e realidade virtual.

Mas, vamos por partes, confira aqui as dicas preciosas que o Carlos Luzzi deu pra quem está entrando no mundo da ilustração e da animação. 

Se você não conhece ainda esse grande artista do cenário mundial de animação, ele iniciou sua carreira como animador nos maiores estúdios de comerciais do Brasil e EUA. Trabalha atualmente para a série Maia and the Three na NetFlix (em produção). Na profissão desde 2005, tem se envolvido com todo o processo criativo da animação, da concepção da história, passando pelo desenvolvimento visual e animação, o que lhe deu uma visão ampla do processo da animação. Entusiasta do desenho e sketch, sempre rabiscando em seus sketchbooks entre um job e outro, ele ensina na ICS para a nova geração, transmitindo os conhecimentos do desenho que aprendeu com os mestres Glenn Vilppu e Karl Gnass, e no American Animation Institute, USA.

https://ics.art.br/carlosluzzi/

5 dicas para se tornar um animador profissional:

1 - Onde você quer chegar?

Todos passam por essa pergunta no início da própria trajetória. No início, não há um caminho, mas um não-caminho, que depois vai ficando mais nítido.

Luzzi conta que os caminhos estavam mais abertos ao destino do desenho, mas isso foi maturando e apresentando o que ele realmente queria: a animação. As oportunidades que aparecem pelo caminho moldam nosso caminho, se não fosse esse acaso de ter conseguido uma oportunidade na animação no início de sua carreira, talvez ele tivesse sido desenhista, o que sempre foi uma grande paixão também.

A partir disso, buscou instrução de alto nível, mas isso simplesmente não existia no Brasil. Existia o Design como faculdade, mas não animação.

2 - Como chegar lá?

Ele tinha que escolher entre ficar no Brasil, onde poderia trabalhar em estúdios para aprender, embora no exterior pudesse fazer uma faculdade de animação e estudar desenho.

No final dos anos 90, o preço de uma faculdade nos EUA era de 20 a 30 mil dólares por ano. Ele não tinha condições, mas cavou um caminho e fez um curso de desenho por lá com duração de um ano, onde conheceu pessoas, técnicas e praticou muito.

Ele entendeu que seriam necessárias muitas horas de prática de desenho e de animação, além do conhecimento teórico. O fundamento é muito importante, esse aprendizado veio com um professor oriental, e hoje em suas aulas ele também transmite a importância da repetição e do investimento nos fundamentos.

Você já ouviu falar sobre a teoria das 10.000 horas?

Malcolm Gladwell, no livro “Outliers, stories of success” fala do conceito das 10.000 horasSegundo ele, se dedicarmos 10.000 horas a qualquer atividade, seremos capazes de virar experts nela. Isso é o equivalente a 3 horas por dia durante 10 anos. 

Luzzi, com graça, usa o termo “horas-bunda-cadeira”.

Então, uma grande dica para qualquer pessoa que esteja nesse caminho é o gerenciamento de horas – quantas horas tenho que desenhar por semana? Quantas horas tenho que animar por semana?

Desenho é uma das técnicas que requer prática mecânica.

Conte as horas que você empenhou, horas de estudo e prática de fato. Com 2.500 horas você com certeza já terá confiança no seu trabalho. E com 3.500 no máximo, você estará no mercado. 

Além do mais, às vezes você precisa receber a mesma informação por duas ou três vezes, ou muito mais. Requer maturidade para você aproveitar uma informação a qual você é exposto.

3 - Desenhar figura humana X O que você quer desenhar

“É preciso desenhar mais do que o Mickey Mouse, mas também é preciso desenhar o Mickey Mouse.”

Luzzi conta como gostava de Jim Davis (ilustrador do Garfield) e como os desenhos dele o inspiraram, ele passava muito tempo desenhando o que gostava, mas quando começou a estudar desenho em cursos, começou a ter tarefas e focos específicos, como desenhar figura humana de diversas formas, e entendeu que isso eram fundamentos. Mesmo que você goste de desenhar algo em específico, é preciso estudar os fundamentos, todos os grandes desenhistas têm essa prática. Mas, também não esqueça de desenhar o que você gosta.

4 - Animador é sobretudo um artista

Entender a Arte como um todo é um diferencial e se traduz no seu trabalho. É importante olhar para artes plásticas, música, cinema, literatura etc. A média dos profissionais do mercado não entende nada além de animação, no entanto está tudo relacionado, o animador é sobretudo um artista

Luzzi conta da ocasião em que observava o ano de lançamento dos filmes da Disney e comparava a semelhança de estilos, e se encantava com a relação entre épocas e estúdios. É possível olhar para a transformação da história da arte na transformação de estilo na história da animação do século XX.

5 - Acessar o conhecimento de mestres do passado

Na sua passagem por estúdios de animação nos EUA, uma coisa era animação e outra era desenho. Estudando desenho por lá ele obteve fundamentos muito fortes, para depois fortalecer sua técnica em animação no Brasil. Olhando para isso hoje em dia, ele percebe que seu estudo nos EUA foi o acesso ao conhecimento dos mestres do passado

O conhecimento é transmitido entre as pessoas por gerações. Existem pessoas que guardam em si um arcabouço que carrega 300 anos de conhecimento.

Quando se é jovem, se percebe o mundo com um escopo de 10 anos, mas tudo já foi feito. No desenho não é diferente, grandes soluções já foram pensadas. Saiba encontrar e aproveitar esses mestres.

Além disso, é importante acessar conhecimentos de alto nível

Existem muitas universidades no Brasil, o Infnet é uma escola excelente para esse campo, e atualmente existem muitas disponíveis. Nos anos 90, Luzzi precisou ir aos EUA, hoje não é mais necessário. Uma faculdade abrange muita coisa. Há uma porção de disciplinas, técnicas e teorias. Mas a prática mecânica vai um pouco além da própria universidade, não há como escapar do “horas-bunda-cadeira”. É preciso sentar e desenhar, praticar muito.

Atualmente, existe grande possibilidade de encontrar instrução de alto nível. Contrariamente a como era antes, há excesso de conteúdo, o que pode demandar orientação para encontrar um caminho.

Beleza, pronto pra ir pra vanguarda do 3D agora?

JC, embora faça seu ganha-pão como editor, destaca o investimento próprio em projetos independentes de audiovisual, com projetos pessoais a cada dois anos. E também sua volta à academia no seu ingresso em mestrado em 2019, onde conheceu Ranz.

 

Ranz é uma figura importantíssima no meio, produziu inúmeros eventos nacionais e internacionais

No Festival Meliés, Ranz e JC contaram suas experiências com Realidade Virtual (VR), Narrativa Interativa e Filmes em 360.

O que é VR (realidade virtual)?

Realidade virtual é uma tecnologia de interface entre um usuário e um sistema operacional através de recursos gráficos 3D ou imagens 360º cujo objetivo é criar a sensação de presença em um ambiente virtual diferente do real.

 

O que é Narrativa Interativa em VR?

Narrativa interativa é uma forma de entretenimento digital no qual o roteiro não é definitivo ou predeterminado. Em VR o usuário pode interagir com a narrativa usando o próprio corpo ao invés de controles.

 

O que é Filme 360º?

Um vídeo 360 é criado com um sistema de câmera que grava simultaneamente 360 graus de uma cena. Os visualizadores podem girar em um ponto de vista do vídeo 360 para assisti-lo em diferentes ângulos.

Luzzi falou sobre o conhecimento dos mestres, esses dois são exemplos de conhecimento e pesquisa na área da tecnologia 3D e do cinema, confira um pouco sobre eles:


Ranz Ranzenberger atua profissionalmente na direção e produção de filmes imersivos 360 e como agente responsável em orientação de novos estudantes para Vanarts (Vancouver Institute of Media Arts) e Vancouver Film School (VFS). Com mais de 25 anos de experiência em Computação Gráfica e Efeitos Visuais, foi responsável por consultorias e treinamentos para os principais profissionais, TVs e produtoras do país, como instrutor e especialista em 3D e pós-produção.

JC Oliveira trabalhou em diversos projetos como editor, para cinema e TV, para canais como TV Globo, Multishow, GNT, TV Brasil, Futura, Canal Curta, Canal BIS, Arte 1 e MultiRio. Também já editou videoclipes, institucionais e vídeos corporativos, além de coordenar ou supervisionar processos de finalização e pós-produção audiovisual. Em paralelo ao trabalho de edição para o mercado audiovisual, é sócio e diretor na produtora audiovisual independente Caos e Cinema, que possui obras de ficção e documentários que passaram em diferentes festivais, no Brasil e no exterior.

https://jcoliveira.com/sobre

Neste projeto no qual foram parceiros, havia a vontade de JC de fazer algo totalmente novo e Ranz, um mestre no campo tecnológico da multimídia, foi um grande parceiro nessa implementação.

Mas ainda havia cautela sobre como implementar esse novo formato 360. De que maneira pode-se produzir cinema utilizando essa nova tecnologia? O momento atual é interessante, pois as regras ainda estão sendo feitas, não se tem uma regra estabelecida como se tem no cinema narrativo clássico.

JC partiu das perguntas que todo cineasta deve se fazer no início de um projeto:

– Que história queremos contar?

– Como queremos contar?

O Filme 360 Sintonia Espacial é sobre um casal que se encontra isolado durante a pandemia de covid-19, cada um em sua casa, com a vontade de se reconectar.

Assista ao trailer do filme 360 "Sintonia Espacial"!

Ao falar-se de cinema 360, automaticamente se pensa no headset, os “óculos de realidade virtual”, mas ao mesmo tempo não se pode negar que existem outras formas de se consumir esse conteúdo, como o YouTube, o Facebook, e diversas plataformas que suportam mídia 360.

Existem muitas experiências de realidade virtual que o espectador pode ter, nessa nossa plataforma ele também é chamado de interator. Já que aquele que está assistindo pode ser um personagem na cena, um interlocutor dos outros personagens do filme, que olham diretamente para o espectador. Os personagens podem interagir com quem está consumindo a experiência! Mas nesse caso, o filme escolheu por adaptar-se a múltiplas plataformas, então, já que essa interação não funciona tão bem sem os aparelhos do Headset, o espectador interage com o ambiente apenas como um observador.

Ufa, por hoje é só. Mas o conteúdo não para por aqui, o Festival Méliès teve dois dias, em breve sai a postagem pra trazer pra você todo o conteúdo do outro dia.

Obrigado por ler até aqui 🙂

E se você está interessado em animação, desenho ou cinema, não deixa de conferir as graduações da ECDD! O caminho está aberto para a sua carreira!

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